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Apresentação do livro BAUMAN, Zygmunt. Tempos líquidos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007.


Porjulianafachin- Postado em 19 agosto 2012

 

 

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA

CENTRO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DIREITO

 

 

Disciplina - Governo Eletrônico

Período letivo: 2012/2

Professores: Aires José Rover

                    Orides Mezzaroba

 

Alunos: Juliana Fachin

             Valter Moura

 

BAUMAN, Zygmunt. Tempos líquidos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007.

 

No primeiro capítulo A vida líquido-moderna e seus medos,Bauman aponta para questões centrais da discussão em seu livro “tempos líquidos”.

O medo éum fator característico da sociedade líquido-moderna globalizada. Com a globalização e a abertura dos estados para circular o fluxo do capital livre a sociedade se sentiu ameaça, insegura; O fluxo de pessoas em busca de melhores condições de vida é um fator atormentador para a sociedade moderna.

Os tempos são “líquidos” porque tudo muda tão rapidamente. Nada é feito para durar, para ser “sólido”. As relações (pessoais, trabalho, e em comunidade, em conjunto) sociais não são mais estáveis, concretas duráveis. Com a globalização e a abertura social, por ser incompleta, tornou-se uma “sociedade impotente como nunca antes”, tem dificuldade em decidir com certeza o caminho a seguir. (BAUMAN, 2007, p. 13)

Conforme Bauman o destino da sociedade sobre o efeito da globalização ainda é imprevisível, pois está totalmente voltada para o comércio e o capital, a vigilância tornou-se algo imprescindível, assim como o acesso a informações disponíveis nas diversas mídias; Já a violência, as armas que norteiam os crimes fortalecidos no terrorismo, fascismo e o fanatismo religioso causam constantes conflitos na sociedade globalizada, não respeitando regras e limites. “Quando antigamente a sociedade almejava viver em uma sociedade aberta, no momento vivencia experiências aterrorizantes de uma população infeliz e vulnerável.” (BAUMAN, 2007, p.13)

Na sociedade globalizada, moderna e dita “aberta” algumas atitudes sociais são aceitáveis outras impugnadas e isoladas da sociedade. “Arundhati Roy: Enquanto a elite, em algum lugar do topo do mundo, busca viagens a destinos imaginados, os pobres são apanhados numa espiral de crime e caos.” (BAUMAN, 2007, p.14)

Devido o êxodo da população rural para as cidades em busca de melhores condições de vida, também vieram as super populações, constituindo as megalópoles e junto a esse crescimento os problemas também aumentam como a violência e criminalidade.  O medo e anseio desta face da sociedade se refletem na constituição dos espaços, cada vez mais fechados, “protegidos”, enclausurados.

O progresso desencadeou o ritmo estonteante em que a sociedade consiste enrustindo os medos e anseios, sobre constante preocupação com o câncer, tabagismo, colesterol, pressão alta, estresse, entro outros problemas que mascaram o ritmo acelerado que a sociedade consumista vive, inferindo no senso de desordem.

O medo está lá, saturando diariamente a existência humana, enquanto a desregulamentação penetra profundamente nos seus alicerces e os bastiões de defesa da sociedade civil desabam. O medo está lá - e recorrer a seus suprimentos aparentemente inexauríveis e avidamente renovados a fim de reconstruir um capital político depauperado é uma tentação à qual muitos políticos acham difícil resistir. E a estratégia de lucrar com o medo está igualmente bem arraigada, na verdade uma tradição que remonta aos anos iniciais do ataque liberal ao Estado social. (BAUMAN, 2007, p. 23)

 

O documentário sobre os conflitos no Iraque (Iraque à venda: Quem lucra com a guerra) relata a contratação de empresas privadas para vender serviços de segurança, em que negócios milionários são feitos com o governo Americano, visando somente os lucros. 

 

 

 

A situação representada pelo documentário é enfatizada por Bauman quando menciona a questão da desordem da sociedade, do medo, do caos e uso desses pretextos para se beneficiar de alguma forma. “O resultado mais evidente da campanha antiterrorista foi o rápido aumento do medo que saturou a sociedade como um todo.”  (BAUMAN, 2007, p. 24) Um outro documentário relata o uso da máquina pública para gerar lucros para instituição privada, lucros com os conflitos, as guerras de interesses, cada um com sua causa.

 

 

 

Bauman enfatiza a questão da insegurança social, “num mundo em que poucas pessoas continuam a acreditar que mudar a vida dos outros tenha alguma relevância para a sua” [...] A sociedade não é mais protegida pelo Estado [...] é pouco provável que confie na proteção oferecida por este. (BAUMAN, 2007, 30)

            Contudo, com tanto medo, conflitos, guerras e interesses a sociedade se tornou em um ambiente aberto para os negócios, mas fechados para a sociedade, para o convívio social. As pessoas tornaram-se individualistas, desconfiadas de tudo e todos, dos visinhos, estranhos, desconhecidos, do local e principalmente dos estrangeiros (conforme Bauman representam pessoas desqualificadas, sem utilidade, perspectiva de vida, prontas para atacar ou quebrar regras).

São esses os cenários da sociedade urbana aberta, onde estranhos se cruzam, mas não querem contato por receio, medo, insegurança, desconfiança um do outro. O individualismo enfraqueceu os vínculos humanos, acabando com a solidariedade, com o convívio em grupo, esse é o reflexo da atual globalização.

            Para Bauman a política que antes era voltada para a solução de problemas iguais da sociedade, tornou-se preocupada com problemas locais, restringindo seu poder, suas regras e ação. “Num planeta negativamente globalizado, todos os principais problemas - os meta problemas que condicionam o enfrentamento de todos os outros - são globais e, sendo assim, não admitem soluções locais.” (BAUMAN, 2007, 31) O medo é o fator atormentador da sociedade moderna as chamadas abertas.

            O autor relata que em quanto a sociedade não entrar em um consenso de responsabilidade ética para conduzir os problemas e diminuir a desigualdade social, com uma democracia voltada para o bem estar das pessoas e não da economia, será difícil constituir uma sociedade de plena “liberdade”.

            No segundo capítulo sobre a Humanidade em movimento, o autor relata a questão do capitalismo como vilão, destruindo tudo, mas o que impactou mesmo foi a globalização varrendo o “lixo humano para os ralos de escoamento”. O lixo humano está relacionado à população pobre, marginalizada, suburbana, do gueto, os estrangeiros, os incapacitados (os que não tiveram oportunidade de educação). Os ralos de escoamento são as formas de evasão destas pessoas, como também o realocamento delas pessoas pela ocupação da sociedade globalizada, das indústrias e do comércio.

Bauman enfatiza o discurso de Jeremy Seabrook em que “descreve a ‘sorte’ dos pobres globais de nossos dias, expulsos de sua terra e forçados a buscar a sobrevivência nas favelas que crescem rapidamente na megalópole mais próxima: A pobreza global está em fuga; não porque seja escorraçada pela riqueza, mas porque foi expulsa de um interior exaurido e transformado.” (BAUMAN, 2007, p. 34)

As terras em que plantavam e colhiam não fornecem mais condições para a sobrevivência, o solo está viciado de fertilizantes e pesticidas caríssimos, o produtor não consegue mais se manter com o que produz. A água é contaminada ou por derivados de agrotóxicos ou pelo esgoto; Os canais de irrigação secaram; O local não fornece mais subsídio para a sobrevivência, sem assistência à saúde, educação e condições de sobrevivência, essas pessoas acabam migrando para as metrópoles, deixando para trás culturas, raízes, e muitas vezes famílias.

            O capitalismo não atingiu apenas as cidades urbanas, também o interior, afugentando seus moradores sem condições de sobreviver no local, abandonado tudo para tentar a sorte em outro lugar. Onde existia plantio, gado, colheita, existe hotéis fazenda, resorts litorâneos, obrigando milhares de pessoas a desistir de tudo e buscar outros sonhos, em outros lugares.

            O autor relata que a sociedade tem se preocupado com problemas ambientais (como o lixo industrial e doméstico, aquecimento global, etc.), mas não se preocupa com as

Massas cada vez maiores de pessoas desperdiçadas no equilíbrio político e social da coexistência humana planetária.A conseqüência da globalização do mercado financeiro e de trabalho, da modernização administrativa pelo capital, do modo de vida moderno, colaboram para os “escoadouros” humanos, excluindo os não pertencentes ao meio. [...] A vida moderna produz uma “escala crescente: a população supérflua, supranumerária e irrelevante - a grande quantidade de sobras do mercado de trabalho e o refugo da economia orientada para o mercado, acima da capacidade dos dispositivos de reciclagem” (BAUMAN, 2007, p. 35)

 

            Os conflitos sociais também são fatores expurgatórios da sociedade desprovida, são induzidas a percorrer um caminho desconhecido, sobe insegurança, medo e receio.“Quanto às "pessoas excedentes" atualmente expulsas em larga escala das terras que só recentemente ingressaram ou foram empurradas no carro de Jagrená da modernidade.” (BAUMAN, 2007, p. 36). Conforme Giddens, (1991, p. 124) o carro de Jagrená significa “uma máquina em movimento de enorme potência que, coletivamente como seres humanos, podemos guiar até certo ponto mas que também ameaça escapar de nosso controle e poderia se espatifar.”

            Por esse motivos o excedente populacional são preocupantes, indesejáveis,  seus costumes, educação e características não condizem com da sociedade moderna, não podendo fazer parte dos padrões de vida “normal” mas são necessários como mão de obra reserva, para fazer o serviço ‘sujo’ indesejável (quando lhes é permitido).

            A sociedade deixou de ser tolerante e de se preocupar com o ‘próximo’; O Estado-Nação se preocupa com o fluxo econômico financeiro. Como conseqüências da globalização o número de vítimas sem teto e sem Estado aumenta, a desregulamentação das guerras provoca miséria, cria milhões de pessoas desesperadas, desabrigadas em fuga, com medo, fugindo para um lugar ‘seguro’, em busca de segurança.

Às vésperas da invasão do Iraque, a Otan foi solicitada a mobilizar seus exércitos para ajudar a Turquia a fechar sua fronteira com o Iraque a fim de impedir um ataque ao país. Muitos estadistas dos países da Otan foram contrários a isso, levantando reservas imaginosas – mas nenhum deles mencionou publicamente que o perigo do qual a Turquia precisava ser protegida (ou assim se pensava) era o influxo de refugiados iraquianos transformados em sem-teto pela invasão norte-americana. (BAUMAN, 2007, p. 40, grifo nosso)

 

Conforme Bauman os refugiados são proibidos de entrarem em países desenvolvidos, são mandados para outros países, que os rejeitam e mandam para outro. Os refugiados são pessoas indesejadas, seja qual for o país que forem ir não serão aceitos e introduzidos naquela sociedade. “Um dos efeitos mais sinistros da globalização é a desregulamentação das guerras. [...] A população geral de um Estado se vê assim num espaço sem lei. A parte dela que resolve e consegue fugir do campo de batalha encontra-se em outro tipo de anarquia, a da fronteira global.” (BAUMAN, 2007, 43)

            Os desabrigados e refugiados são indesejados por países globalizados, são estranhos com outras culturas, desprovidos de boa educação e maneiras, não conhecem as regras e costumes do lugar, não estão preparados para fazer parte desta sociedade. “Os refugiados são a própria encarnação do "lixo humano", sem função útil a desempenhar na terra em que chegam onde permanecerão temporariamente, e sem a intenção ou esperança realista de serem assimilados e incluídos no novo corpo social.” (BAUMAN, 2007, 47)

            O pós-guerra nos anos 70 trouxe esperança de um mundo aberto, livre, sem fronteiras e muralhas, mas o capitalismo direcionou a sociedade para outros caminhos de liberdade, sob outros conceitos e fundamentos. O bem estar social passou a se resumir no modelo penal, punitivo, expressivo, voltado para a segurança. Reforçando o controle de entrada e saída do país, a fim de proteger o estado, dos lixos sociais.

Um continente-fortaleza é um bloco de nações que unem forças para extrair termos comerciais favoráveis de outros países, enquanto patrulham suas fronteiras externas comuns para manter fora as pessoas desses países. Mas se um continente leva a sério a questão de ser uma fortaleza, também deve convidar um ou dois países pobres para ter acesso a suas fronteiras, pois alguém tem de pegar no pesado e fazer o trabalho sujo. (BAUMAN, 2007, 58)

 

Vivendo as margens da sociedade a população excedente, não tem condições de se inserir nos padrões sociais aceitáveis, e aguardam a chamada mão de obra, que nunca chega, quando chega é tão provisória quanto a sua permissão para fazer parte. Todo luxo da sociedade globalizada não esta disponível aos pobres, ‘lixos da sociedade’, e não são mais permitidas as migrações de uma região para outra, pois o medo que assola a sociedade tem também, cara de imigrante.

 

O terceiro capítulo sobre Estado, democracia e a administração dos medos, ressalta a insegurança dos tempos atuais, dos anseios, angustias, receios de tudo que lhe faça sofrer. Conforme Bauman (2007) O medo moderno, surgiu da desregulamentação com a individualização, em que os vínculos humanos (parentesco e vizinhança) solidificados por laços comunitários se quebraram, soltaram-se, romperam,  substituindo os vínculos naturais (danificados pelo mercado comercial) por vínculos artificiais em forma de organismos (movimentos, sindicatos, associações.. etc. em tempo parcial).

O fim da solidariedade significou o fim do estado sólido (de relações concretas) em administrar o medo. A natureza, o ambiente, o lugar e o espaço passaram a representar lugares suscetíveis e melindrosos. Castel enfatiza, “a insegurança moderna não deriva de uma carência de proteção, mas sim da "falta de clareza de seu escopo" (BAUMAN,2007, p. 63).

O ritmo acelerado da sociedade moderna em que tudo é intenso e constante, os atormentos cotidianos, o estresse, impaciência, a falta de tolerância uns com os outros, são sintomas de uma sociedade doente, com necessidade e fragilidades. O bem estar individual e social é um elemento ausente na sociedade globalizada. A inadequação da sociedade globalizada que ajustam as relações dos seres humanos na família, no Estado e na própria sociedade, provoca mazelas e fragilidades nas estruturas públicas e privadas, prejudicando indivíduos e comunidades.

“A sociedade vem substituído às comunidades e corporações estreitamente entrelaçadas, que no passado definiam as regras de proteção e monitoravam sua aplicação pelo dever individual do interesse, do esforço pessoal e da auto-ajuda, tem vivido sobre a areia movediça da contingência.” (BAUMAN,2007, p.63). A sociedade vive loucamente em busca de segurança, seja física, financeira ou social. A individualização moderna em si é responsável por uma parcela dessa insegurança.

  O Estado tinha a tarefa de administra o medo. As redes de proteção social do passado pré-moderno (sólidas) administradas pelo Estado eram planejadas para proteger seu povo dos perigos externos. Com a rápida globalização, o crescimento das cidades e das construções desordenada, os locais que antes eram seguros, tornaram-se fragilizados e desprotegidos.

            Deixando de confiar na atuação do estado a sociedade partiu em busca de meios para se proteger dos perigos que as afligem.

A segurança das pessoas e a proteção de suas propriedades são condições indispensáveis para a capacidade de lutar efetivamente pelo direito à participação política, mas não podem se estabelecer de forma definitiva nem serem adotadas com confiança, a menos que a forma das leis impostas a todos tenha se tornado dependente de seus beneficiários. (BAUMAN, 2007, p. 67)

O direito ao voto definiu o conceito de democracia, em que o povo deveria deter o poder de criação, modificação de leis, e práticas políticas. Mas que deixou a muito tempo de ser efetivamente aplicada. Não de pode ter o direito pessoal se não exercer o direito político para assegurar que as regrar que garantem o direito individual sejam cumpridas.

  Se os direitos políticos podem ser usados para enraizar e solidificar as liberdades pessoais assentadas no poder econômico, dificilmente garantirão liberdades pessoais aos despossuídos, que não têm direito aos recursos sem os quais a liberdade pessoal não pode ser obtida nem, na prática, desfrutada. (BAUMAN, 2007, p. 70, grifo do autor)

           

As questões relacionadas aos direitos pessoais estão totalmente ligadas aos direitos políticos. Bauman (2007, p. 71) enfatiza que “sem os direitos políticos, as pessoas não podem ter confiança em seus direitos pessoais; mas sem direitos sociais, os direitos políticos continuarão sendo um sonho inatingível, uma ficção inútil ou uma piada cruel para grande parte daqueles a quem eles foram concedidos pela letra da lei.”

 

Por tanto o jogo político transformou-se em meios para ajustar as instituições e procedimentos políticos às realidades sociais globalizada, usando a democracia moderna e o processo político para reformar a realidade social. A liberdade de escolhas transformou-se em um ato enganoso, embutindo na mente das pessoas que podem escolher participar nas decisões sociais.

            A questão que envolve os direitos envolve as condições humanas de existência na sociedade, de fazer parte e ter as mesmas chances ou oportunidades, garantindo condições dignas de sobrevivência. “Estar sem emprego implica ser descartável [...] destinado ao lixo do "progresso econômico.” (BAUMAN, 2007, p. 76)

            Quando o autor enfatiza as condições sub-humana em que várias pessoas vivem, a constante busca da sobrevivência, a tamanha desigualdade social em que o ganho de poucos (bilionários) seria o suficiente para alimentar um continente faminto.  “indivíduos deixados fora das classes e que não são portadores de nenhuma das funções reconhecidas, aprovadas, úteis e indispensáveis que os membros "normais" da sociedade executam. a "subclasse" e os "criminosos" são apenas duas subcategorias de excluídos” anti-sociais, indesejáveis, (BAUMAN, 2007,p. 76)

            No quarto capítulo o autor aborda as grandes cidades divididas entre duas camadas. Uma que vive na realidade do mundo globalizado, conectados à comunicação e redes de intercâmbios. A outra extremidade são redes locais, de base étnica que recorrem as suas identidades para defender seus interesses e se necessário sua existência. Cada camada detém de necessidades diferentes, uma faz parte do global e a outra em sobreviver.

Bauman relata que a população excedente, refugiada ou de pouco potencial torna-se tão incomoda, quanto a poluição do planeta. As guerras e conflitos fazem com que a sociedade fique cada vez mais insegura, com medo, fugidia, abandonado tudo, deixando suas vidas para trás em busca de proteção e por medo dos atos terroristas dos movimentos que guerrilham por objetivos únicos, só deles.

Neste sentido o medo das pessoas fazem com que elas se desloquem, se trancafiam em casa, condomínios fechados,  carros blindados, e longe de qualquer um que possa ser estranho ou parecer perigoso.

Por outro lado a sociedade menos desprovida só quer ter acesso às condições básicas de sobrevivência, isso indica que eles deslocam-se conforme as oportunidades, super lotando as cidades urbanas em busca de melhores condições de vida, e com essa super população também surgem os guetos, que já são individualizados, como medo. E o crime que anda lado a lado com a globalização. Conforme Bauman (2007, p. 84) as globalização ocasiona mudanças sociais de amplitude local e global.

Transformações sociais, culturais e políticas associadas à passagem do estágio "sólido" para o estágio "líquido" da modernidade, o afastamento da nova elite (localmente estabelecida, mas globalmente orientada e apenas ligada de forma distante ao lugar em que se instalou) de seu antigo compromisso com a população local e a resultante brecha espiritual/ comunicacional.

 

            A mutação da sociedade moderna em que consiste o estado liquído-moderno é proveniente dos anseios sociais por segurança, mobilidade,  desejo de consumo, de fazer parta da camada superior, característicos do momento. “as cidades se tornaram depósitos sanitários de problemas concebidos e gerados globalmente. Osmoradores das cidades e seus representantes eleitos tendem a seconfrontar com uma tarefa que nem pela força da imaginaçãopoderiam realizar: a de encontrar soluções locais para problemase dilemas concebidos globalmente.” (BAUMAN, 2007, p. 89)

A política que antes era centrada na sociedade tornou-se um símbolo econômico para se beneficiar de troca de subsídios, com isso fica sem ‘poder’ para impor regrar e garantir a segurança pública, restringindo em ações locais, mas que na verdade são globais. “a política local - e particularmente a política urbana - se tornou desesperadamente sobrecarregada, muito além de sua capacidade de carga e desempenho. [...] uma característica das cidades são que: as cidades são espaços em que estranhos ficam e se movimentam em estreita proximidade uns dos outros.” (BAUMAN, 2007, p. 90)

Outros problemas relatados pelo autor é a capacidade da sociedade globalizada em criar vínculos, relações sólidas. Pessoas desconhecidas representam perigo, a “mixofobia” o medo de se misturar ocasiona as divisões, separações das camadas, das classes.  Já a mixofilia consiste em deixar o medo de lado e aceitar que o outro faça parte do mesmo convívio social, sem medo do estranho, pois apesar das diferenças são todos humanos. “A mixofobia e a mixofilia coexistem em toda cidade, mas também dentro de cada um de seus moradores.” Mixofobia- medo de se misturar de conviver com estrangeiros, estranhos.” (BAUMAN, 2007, p. 95)

 

            O último capítulo Bauman trata da Utopia na era da incerteza

 

            Os relatos indicam que a sociedade pós-segunda guerra era cheias de esperança e desejos de mudanças e melhorias, e que as sociedades seriam livres e abertas. Um mundo sem insegurança e medos sem fundamentos era apenas um sonho. “Nos séculos imediatamente seguintes, o mundo moderno seria um mundo otimista - vivendo rumo à utopia.” (BAUMAN, 2007, p. 101). Embora as utopias tenham nascido com a modernidade, segundo Bauman, ainda se aspira aos anseios utópicos de um mundo melhor.

Antes dos tempos modernos os humanos nem pensavam em modificar o mundo á sua volta para transformá-lo em um lugar ideal para eles. A utopia nasceu de duas condições: o sentimento irresistível de que o mundo não funcionava de maneira adequada, e que era impossível consertá-lo sem ruma análise completa da situação. E na confiança na capacidade humana de realizar essa tarefa, corrigindo os erros percebidos, construirão ferramentas necessárias para executar esses projetos na realidade humana.

O pensamento que o mundo sob administração humana, poderia ser adequado as necessidades e satisfação das pessoas sob a postura do “guarda caça”, que visava proteger a terra contra as inferências humanas, respeitando a natureza, e impedindo furtos e invasões de outros, de estranhos, para assegurar o equilíbrio natura.

O trabalho do guarda-caça se baseia na crença de que as coisas andam melhor quando não as consertamos. em tempos pré-modernos, baseavam-se na crença de que o mundo era uma cadeia divina de seres em que cada criatura tinha seu lugar útil e legítimo, mesmo que a capacidade mental humana fosse demasiadamente limitada para compreender a sabedoria, a harmonia e o caráter ordenado do projeto divino. (BAUMAN, 2007, p. 104)

 

Já o jardineiro, pensava que não havia ordem no mundo, designando quais plantas poderiam crescer em seu lote, ou não, desenvolve uma disposição desejável para as coisas, e põem em prática seu projeto, extinguindo e eliminando todas as outras espécies, as “ervas daninha” indesejáveis. Os jardineiros são os verdadeiros construtores de utopias, “harmonias pré- planejadas”.

É na imagem do ideal de harmonia dos jardineiros, cuja planta foi esboçada pela primeira vez em suas cabeças, que "os jardins sempre desembarcam", um protótipo da maneira pela qual a humanidade, relembrando o postulado de Oscar Wilde, tenderia a desembarcar num país chamado "utopia". (BAUMAN, 2007, p. 104)

 

Se a utopia está se extinguindo é por que a postura do jardineiro está cedendo para a postura do caçador. Mas o caçador não dá importância para o equilíbrio do meio. “A única tarefa que os caçadores buscam é outra, a "matança", suficientemente grande para encherem totalmente suas bolsas.” (BAUMAN, 2007, p. 105) quando a caça acaba em um lugar o caçador muda-se para outro lugar. A atitude do guarda-caças foi o elemento que desencadeou a consciência ecológica.

Mensagem ambiental: vídeo sobre a conscientização dos cuidados com o meio ambiente.

 

Bauman (2007, p. 107) enfatiza que a utopia não se extinguiu totalmente, ainda esta no convívio das pessoas. “"Utopia" denotava um objetivo distante cobiçado e sonhado ao qual o progresso deveria, poderia e iria finalmente conduzir os que procuravam um mundo que atendesse melhor as necessidades humanas.”

 

O vídeo sobre o lixo, marca da sociedade consumista, faz uma reflexão sobre o cuidado do planeta, e a importância da consciência do uso necessário dos meios naturais.

 

 

 

Conforme Bauman globalização assumiu muitos poderes sobre o Estado-nação, não se preocupando nem com a filosofia do guarda caça, nem com do jardineiro, beneficiando tanto a caça quanto ao caçador. O mercado consumidor tende a beneficiar a economia, como também satisfazer os anseios da sociedade consumista e insatisfeita.

Vocês vão se entediar com seus empregos, suas esposas, suas amantes, a vista de suas janelas, a mobília ou o papel de parede do seu quarto, seus pensamentos, vocês mesmos. Conseqüentemente, vocês vão tentar encontrar maneiras de fugir. Além dos artifícios de auto-satisfação mencionados acima, vocês podem recorrer à mudança de emprego, de residência, de empresa, de país, de clima, podem assumir a promiscuidade, o álcool, viagens, aulas de culinária, drogas, psicanálise. (BAUMAN, 2007, p. 109)

 

É uma eterna busca por satisfação do ego, o consumismo ajuda momentaneamente a satisfazer o ego, mas faz com que saia constantemente para “caçar” algo, consumindo muita atenção e energia, tornando-se um vício do consumo. A utopia buscada nos dias atuais são enganadoras ilusória, fraudulenta.

 

Era das Utopias – Documentário que enfatiza sobre as utopias da sociedade consumista. 

 

"O que nós queremos de fato é que as idéias voltem a ser perigosas" - Escrito num muro de Paris, 1964. A utopia pela igualdade entre os homens inspirou gerações.